| INFORMES ABONG Nº 86 - Abril de 2000 - Série Direitos Humanos OS PORTADORES DE HIV E O RESGATE DA CIDADANIA
O Informes ABONG dá continuidade à série especial
sobre Direitos Humanos. Nesta edição, será abordado o tema da AIDS, em
entrevista com a equipe do GAPA-BA. Entre outras questões, foram discutidas as
formas de discriminação mais freqüentes em relação aos soropositivos e a
participação da sociedade no processo de resgate da cidadania deste
grupo.
ABONG - A epidemia de
HIV/AIDS tornou-se, nos últimos anos, um dos mais sérios problemas de saúde já
apresentados no Brasil. É possível fazer uma análise da contaminação no
País? GAPA-BA - O Brasil é o terceiro país
com maiores índices de pessoas infectadas pelo HIV em todo mundo, atrás apenas
dos Estados Unidos e Quênia. Em 1996, entre adultos e jovens (de 20 a 39 anos),
os óbitos decorrentes de AIDS já ocupavam o terceiro lugar entre as causas de
óbitos mais freqüentes, sendo superados apenas pelos causados por acidentes de
trânsito e agressões. Em relação às mulheres da mesma faixa etária, a AIDS já
era a primeira causa mortis, superando por pequena diferença os óbitos por
acidentes de transporte (dados da DATASUS).
Algumas tendências atuais no
que se refere ao desenvolvimento e propagação da AIDS vêm sendo constatadas a
exemplo da feminilização, heterossexualização, juvenilização e interiorização.
Em 1985 existiam, em média, 25 homens para uma mulher manifestando a doença e,
em 1998, essa proporção passa a ser de dois homens para uma mulher,
característica que tem provocado maior ocorrência de contaminação em crianças,
antes não tão freqüentes.
A interiorização tem provocado um considerável
aumento na subnotificação, maior descontrole da epidemia e maiores dificuldades
de acesso a tratamentos. Destaca-se como fator agravante a pauperização,
atingindo em grande parte a população mais carente e que, em conseqüência,
traduz-se numa maior necessidade de investimentos públicos.
ABONG - Qual o comportamento da sociedade neste
contexto? GAPA-BA - A epidemia da AIDS traz
para a sociedade moderna um complexo de novos conceitos, e também a necessidade
de uma reflexão sobre liberdade sexual, homossexualismo, drogas, e sexo entre
adolescentes, temas considerados verdadeiros tabus. A discriminação surge
neste contexto, de choques entre valores pré e pós epidemia. Para superação
desta discriminação, é indispensável a formulação de novas respostas, fruto das
reflexões trazidas pela mesma, bem como maior informação sobre as formas de
contágio e as condições do viver com AIDS, uma vez detectada a falta de
informação como fator propulsor de freqüentes atos discriminatórios.
Por
outro lado, também é fundamental a compreensão de que somos todos responsáveis
pelo resgate da cidadania daqueles que vivem com AIDS e essa mudança
necessariamente passa pela utilização de políticas de inclusão, de
comprometimento com a igualdade de direitos entre os indivíduos e a dignidade
humana.
ABONG - Quais os tipos de
discriminação mais freqüentes em relação aos soropositivos? GAPA-BA - O GAPA vem, há onze anos, acompanhando
periodicamente as denúncias trazidas pelos soropositivos, em razão da
discriminação que sofrem nos mais diversos meios de convívio social. Nas
relações de trabalho, a AIDS tem figurado como motivo para demissão
discriminatória do trabalhador, bem como a causa de sua não contratação.
Verifica-se portanto a violação de um direito ao trabalho, previsto no artigo 5o
da Constituição.
Quando se trata de saúde, alguns profissionais se negam
a tratar pacientes portadores de HIV, bem como a realizar cirurgias. Alguns
praticam inúmeros atos discriminatórios, a exemplo do atendimento ser
transferido para o final do plantão. O tratamento odontológico também tem sido
um grave problema neste sentido. As companhias de seguro de saúde têm cometido
constantemente arbitrariedades nas contratações e, embora exista previsão
constitucional de não-discriminação, prevêem cláusulas abusivas dispondo sobre a
possibilidade de não-cobertura para AIDS.
Um outro espaço inicialmente
de difícil interlocução é a família. Ainda há relatos de dificuldades de
relacionamentos com a família em razão da soropositividade. Neste caso, temos
utilizado uma política de informação e sensibilização dessas famílias frente à
condição de cidadão do portador de HIV, retirando o caráter de piedade para com
os mesmos, buscando estabelecer um diálogo entre esta família e os
mesmos.
ABONG - Quais políticas
públicas devem ser implementadas para combater o preconceito aos portadores de
HIV? GAPA-BA - O direito à saúde é tido
fundamental na Constituição Federal. O Sistema Único de Saúde - SUS, tomando por
base dispositivos constitucionais relativos à matéria, possui princípios e
diretrizes vinculantes para seu funcionamento, dentre os quais destacam-se: a
universidade de acesso aos serviços de saúde, a igualdade de assistência em
todos os níveis de complexidade do sistema (art. 199 da Constituição Federal e
art. 7o da lei 8.080/90). Entretanto, esses dispositivos legais estão distantes
de serem praticados pelos governos, pois é bastante freqüente a necessidade de
internamentos que não são possíveis em razão na insuficiência do número de
leitos, bem como profissionais que estejam dotados para o acompanhamento do
paciente e mesmo da escassez de recursos para o tratamento.
Soma-se a
isso a irregular distribuição de medicamentos. Hoje, há uma periódica
distribuição apenas dos anti-retrovirais pela União, entretanto, os medicamentos
destinados à prevenção e ao combate de doenças oportunistas não têm sido uma
prioridade para o Sistema de Saúde Pública, embora exista uma legislação
específica (lei 9.313/96) estabelecendo expressamente a gratuidade no
tratamento, ocasionando em muitos casos, a não adesão ao mesmo e, por
conseguinte, a resistência do vírus ou mesmo a criação de novas
capas.
INTERVENÇÃO
DO GOVERNO FEDERAL MARCA ELEIÇÕES NO CNAS
Apesar do tumulto gerado pela intervenção do Governo Federal durante
o processo eleitoral, aconteceu no último dia 25 a eleição dos representantes da
sociedade civil para o Conselho Nacional de Assistência Social - CNAS. O
Ministro da Previdência e Assistência Social, Waldeck Ornélas, no último dia 20,
publicou despacho no DOU desabilitando o Conselho Federal de Serviço Social -
CFESS a participar da eleição. A participação do CFESS foi assegurada por uma
liminar, mas o processo deve ainda tramitar na Justiça.
De acordo com
Rosangela Paz, representante da ABONG no órgão, durante a Assembléia criou-se um
clima de solidariedade e de reconhecimento ao trabalho do CFESS na luta pela
construção da Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS e consolidação dos
conselhos de assistência social, nas três esferas de governo, instâncias de
deliberação e de descentralização da política de assistência social e também de
repúdio à ingerência, intervenção e tutela do Estado nas eleições da sociedade
civil.
A liminar garantindo a participação do CFESS só foi concedida às
17h, mas chegou a tempo de o Plenário comemorar e realizar as eleições. Mesmo
eleito, o CFESS, com o apoio das entidades da sociedade civil, deverá agora
continuar batalha judicial para manter seu mandato, pois o governo deve entrar
com recurso contra a liminar.
Resultado da Eleição Para a
categoria "entidades e organizações de assistência social" foram eleitas como
titulares a Confederação das Santas Casas de Misericórdia, Hospitais e Entidades
Filantrópicas (18 votos); Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB (16);
Associação de Apoio à Criança e ao Adolescente - Amencar, associada à ABONG,
(13); e como suplentes: Federação Nacional das Sociedades Pestalozzi - Fenasp
(5); Federação brasileira de Instituições de Excepcionais de Integração Social e
de defesa da Cidadania - Febiex (4); e Igreja Presbiteriana do Brasil
(2). Representando os usuários e organizações de usuários, os titulares são:
Federação Brasileira de Associações Cristãs de Moços (16); Federação Nacional
das APAE´s (13); e Pastoral da Criança (11). Os suplentes são: Federação
Brasileira de Entidades de Cegos (8); Organização Nacional de Entidades de
Deficientes Físicos - Onedef (7); e Confederação Israelita do Brasil - Conib
(4).
Os trabalhadores da área da assistência social serão representados
pelo Conselho Federal de Serviço Social - CFESS (21); Associação Nacional de
Sindicatos Social-Democratas (18); e Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Seguridade Social da CUT - CNTSS/CUT (14). Como suplentes foram eleitos a Força
Sindical (5) e a Federação Nacional dos Psicólogos (1).
NOTAS
Brasil: Outros 500 As
entidades que integram o Movimento Brasil: Outros 500 estão organizando várias
ações para denunciar as agressões sofridas por seus integrantes no último dia
22, em Porto Seguro. Na última segunda-feira o Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), anunciou durante entrevista coletiva que vai processar o coronel
Wellington Müller, comandante da operação, por abuso de autoridade, e denunciar
as "atrocidades cometidas nos últimos seis anos pelo governo do presidente
Fernando Henrique Cardoso contra os povos indígenas na Comissão Interamericana
dos Direitos Humanos" da OEA, em outubro. A repressão contra o movimento
Brasil: Outros 500 também será tema de audiência pública que a Comissão de
Direitos Humanos da Câmara realizará hoje, 27. O encontro contará com a presença
do ex-presidente da Funai, Carlos Frederico Marés, o bispo Dom Tomás Balduíno,
da Comissão Pastoral da Terra e do procurador da República na Bahia, Márcio
Andrade Torres. Os ministros José Gregori, da Justiça, e Alberto Cardoso, da
Segurança Institucional foram convidados mas recusaram-se a
participar.
Carta da Terra A Organização das Nações Unidas
para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) aprovou no dia 14 de março, em
Paris, a Carta da Terra. O documento é resultado de oito anos de
discussões, envolvendo entidades da sociedade civil, universidades e centros
de pesquisa de 46 países. Participaram da Comissão de Redação: Mikhail
Gorbachev, Maurice Strong, Steven Rockfeller, Mercedes Sosa, Leonardo Boff,
entre outros. A Carta da Terra deverá ser apresentada pela ONU, em 2002, com o
mesmo valor da Declaração dos Direitos Humanos. Leia a íntegra da Carta no
endereço eletrônico www.dataterra.org.br
Conferência de
Educação Está acontecendo em Dakar, Senegal, entre os dias 25 e 28, a
Conferência Mundial de Educação, com a participação de cerca de 50 ONGs,
indicadas pela Unesco. Nos dois dias que antecederam o evento, aproximadamente
300 ONGs de todo o mundo realizaram encontro para preparar a intervenção da
sociedade civil na Conferência. Sérgio Haddad, presidente da ABONG, está
participando do evento. Baía da Guanabara O Ibase (RJ) está
realizando uma campanha virtual para a conservação da Baía de Guanabara. O ato
consiste em enviar mensagens ao Ministro Sarney Filho pedindo que ele garanta
pelo menos 20% do valor da multa da Petrobrás para as Unidades de Conservação da
Região de Influência da Baía de Guanabara. Os valores e destino da multa
estão sendo discutidos em Brasília. Mensagens para o Ministro: Fax: (61)
3227819; E-mail: sarneyfilho@mma.gov.br.
Informações: guanabay@ax.ibase.org.br
ou www.ability.com.br/ibg
Combate à
corrupção Já se encontra no site www.cbjp.org.br
da Comissão Brasileira
de Justiça o e Paz texto explicativo de como fiscalizar o cumprimento da Lei
9840/99 contra a corrupção eleitoral. As informações também foram organizadas
por meio de uma cartilha, publicada recentemente pelas Edições
Paulinas. Edições Paulinas - (11) 276-5566; Fax: (11) 275-0255; E-mail: editora@paulinas.org.br
; Site: www.paulinas.org.br
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