| INFORMES ABONG Nº 85 - Abril de 2000 - Série Direitos Humanos AS POPULAÇÕES INDÍGENAS E OS DIREITOS HUMANOS NO
BRASIL
O Informes ABONG inicia
nesta edição a série especial que abordará o tema Direitos Humanos a partir do
trabalho realizado pelas ONGs junto a diferentes grupos sociais. A seguir,
entrevista com a equipe do Instituto Socioambiental - ISA sobre os direitos das
populações indígenas, sua relação com a sociedade brasileira e a indicação de
alguns caminhos ainda a percorrer para garantir o respeito às
diferenças.
ABONG: As
populações indígenas estão inseridas no conceito de "direitos humanos" produzido
pela sociedade ocidental? ISA: A defesa
dos direitos e interesses das populações indígenas é um dos principais desafios
da moderna doutrina dos direitos humanos, principalmente em países como o
Brasil, onde a coexistência entre a sociedade industrial ocidental moderna e
outras culturas, baseadas em princípios distintos, ainda é possível. É certo que
um dos princípios democráticos mais conhecidos e importantes é o respeito às
decisões tomadas pela maioria, preceito esse que rege toda a organização
política ocidental. Porém, há um outro princípio, igualmente importante, e que
acaba dando os contornos ao princípio da maioria: o do respeito à diferença. Um
sistema democrático é aquele que sabe conviver com a diferença, seja de idéias
(liberdade de expressão, de imprensa etc.), seja de costumes ou culturas
(respeito às minorias, direito à diferença etc.). O respeito à diferença entre
culturas e a proteção a essas manifestações são algumas das necessidades
impostas pelo moderno sistema de proteção aos direitos humanos, requisitos
essenciais para impedir que um sistema democrático se torne a tão temida
ditadura da maioria. A proteção às manifestações culturais dos povos indígenas,
e a própria garantia à existência dessas comunidades são exigências do sistema
de proteção dos direitos humanos.
ABONG: Quais são as principais reivindicações das
populações indígenas atualmente? ISA: As
principais reivindicações repousam sobre 1) a questão das terras, ou seja, o
governo deve proceder ao reconhecimento de terras já identificadas, concluir as
demarcações já iniciadas, assumir a regularização fundiária das terras já
reconhecidas e as que estão em processo de reconhecimento; 2) a promulgação da
lei que regula as relações dos povos indígenas com o Estado e a sociedade
brasileira (ver resposta seguinte); 3) a formulação e implantação de uma nova
política indigenista, estruturada na Funai, mas que permita tanto um sistema
mais ágil e transparente da administração e do repasse dos recursos destinados
às populações indígenas, quanto mecanismos de apresentação de projetos e gestão
de recursos pelas próprias comunidades indígenas e suas
organizações.
ABONG: Qual seria a
legislação adequada para garantir a existência cultural das populações
indígenas? ISA: No Brasil, a Constituição
Federal expressamente reconhece aos índios sua organização social, costumes,
línguas, crenças e tradições, impondo à União o dever de proteger e fazer
respeitar todos esses bens. Portanto, já reconhece e garante a existência
cultural dos povos indígenas. No entanto, a legislação específica é anterior
à promulgação da Constituição de 1988, carregando ainda o ranço integracionista
que sempre marcou a política indigenista brasileira. Assim, diante da
mudança de paradigma trazida pela Constituição, há que se lutar pela
implementação de uma legislação que esteja em harmonia com os princípios
constitucionais consagrados em 1988 O primeiro passo rumo a essa nova fase
legislativa é a aprovação do "Estatuto das Sociedades Indígenas", em
substituição ao já ultrapassado Estatuto do Índio. O governo acaba de anunciar
sua proposta, o "Estatuto do Índio e das Comunidades Indígenas", substitutivo do
projeto assinado pelo deputado Luciano Pizzato, parado na Câmara desde 1994
(saiba mais lendo o site www.socioambiental.org
página "Ultimas
Notícias")
ABONG: Qual o impacto das
populações indígenas na sociedade brasileira atual? ISA: O ISA fez uma pesquisa com o Ibope para saber o
que o brasileiro pensa do índios. Os resultados foram surpreendentemente
positivos em favor das populações indígenas, e podem ser verificados no site www.socioambiental.org
. Embora a grande maioria dos brasileiros viva em cidades
ou regiões distantes das terras indígenas, 78% dos entrevistados revelaram ter
interesse no futuro dos índios, sendo que 88% concordam que os índios conservam
a natureza e vivem em harmonia com ela, 81% acham que eles não são preguiçosos e
apenas encaram o trabalho de forma diferente da nossa, 89% afirmam que eles não
são ignorantes e apenas possuem uma cultura diferente da nossa e também 89%
consideram que eles só são violentos com aqueles que invadem as suas terras.
Foram entrevistadas duas mil pessoas dos dois sexos, de todas as faixas de renda
e graus de instrução, em todos os Estados brasileiros. A pesquisa detectou uma
mudança significativa na opinião dos brasileiros quanto ao futuro dos índios,
tanto com relação a continuarem vivendo nas suas terras quanto à preservação da
sua cultura. Portanto, se a visão de integrar os índios à sociedade brasileira
foi parâmetro da política indigenista desde o tempo de colônia até hoje, vê-se
indícios positivos de uma mudança da perspectiva que, ao querer igualar,
discrimina a possibilidade de existência e convívio de sociedades
minoritárias.
ABONG: Quais têm sido
as principais formas de resistência indígena? Como se estruturam? ISA: O maior sinal de resistência indígena é a
própria presença deles no Brasil depois de 500 anos de preconceito e
discriminação. São 320 mil índios, 180 etnias e 170 línguas ainda vivas no país;
a população está em franco crescimento (ver artigo do Estado de S. Paulo de
sábado), as comunidades se organizam em associações que buscam meios e autonomia
para gerir os recursos de seus territórios e garantir a defesa deles. Essas
etnias estão trabalhando para assegurar a implantação de processos de
escolarização formal em suas aldeias que preservem a cultura e valorize a
utilização das línguas.
ABONG:
Analise a participação das populações indígenas nas atividades referentes aos
"500 anos" de Brasil. ISA: A
anti-comemoração dos 500 anos pelas comunidades indígenas é um gesto previsível
e importante. Não se trata, por parte deles, de negar o marco histórico, mas de
redimensioná-lo, sobretudo perante a opinião pública que é moldada pela visão
oficial do evento. Assim como se aprende uma história oficial nas escolas, os
500 anos são comemorados também oficialmente. Os povos indígenas no Brasil estão
utilizando uma oportunidade única de colocar sua visão sobre esse período de 5
séculos de convívio injusto e desigual com a sociedade envolvente, dominadora.
Se os não-índios precisam de marcos comemorativos, os índios utilizam-se
justamente dessas oportunidades para fazer com que os olhos do Brasil (e do
mundo) se dirijam a eles. É fácil compreender porque acaba dando lugar para um
conjunto de protestos e demandas; basta cada um de nós pararmos para pensar como
costumamos comemorar o 19 de abril, Dia do Índio - com festinhas nas escolas
infantis que celebram um índio genérico do passado, que usam mocassim, penacho
na cabeça e tatuagem na face. Os índios entram no cenário das festas de 500 anos
para mostrar sua verdadeira cara.
MOVIMENTO BRASIL: OUTROS 500 INICIA MANIFESTAÇÕES EM PORTO SEGURO
Cerca de 1.100 índios de diversas nações
encontraram-se na última segunda-feira (17) com trabalhadores sem terra e outros
setores do movimento popular em Caroa Vermelha, para as manifestações
organizadas pelo movimento "Brasil: Outros 500 Resistência Indígena, Negra e
Popular". O movimento é integrado por ONGs, representantes do movimento popular,
organizações religiosas e outras instituições que, desde o início do ano, vêm
realizando atividades em todo o País para denunciar os 500 anos de exclusão a
que têm sido submetidas as populações não-brancas e pobres do
Brasil.
Ontem, 18, teve início a Conferência 500 anos dos Povos Indígenas
do Brasil, que vai até o dia 22, data em que acontecerão diversas manifestações.
Em Porto Seguro, para a manhã, estão previstos protestos em carros de som na
área indígena Pataxó, na Coroa Vermelha, e a inauguração do Monumento da
Resistência Indígena, Negra e Popular. No começo da tarde, sai a Marcha Brasil
Outros 500, da Coroa Vermelha e, logo depois, será promovido o ato
show. Apesar do policiamento ostensivo que já se notava em Porto Seguro desde
o último final de semana, a expectativa dos organizadores é que as 40 mil
pessoas que estão chegando à cidade em caravanas vindas de todo o País possam
manifestar-se tranqüilamente.
Mais informações: Comitê Nacional
Brasil: Outros 500: (71) 329-4587/328-6876; Comitê em Porto Seguro: (73)
288-4422 - Cimi: www.cimi.org.br
NOTAS
Pré-vestibular Ação da
Cidadania (SP), em parceria com a Associação Pró-Falsêmicos - APROF, há dois
anos vem promovendo um curso pré-vestibular destinado à população pobre.
Inicialmente o curso foi formado para atender os portadores da anemia falsiforme
- doença crônica degenerativa -, mas, tendo em vista o excedente de vagas, foi
aberto à comunidade. Os alunos, que pagam apenas uma taxa mensal R$ 15,00
para manutenção do espaço, são incentivados a candidatarem-se apenas aos
vestibulares de instituições públicas. Graças a um convênio estabelecido entre
os organizadores desses concursos e os promotores do curso, estes estudantes têm
ficado isentos das taxas de inscrição. Os interessados em freqüentar o
pré-vestibular devem entrar em contato com Ricardo José de Abreu (11)
6983-4073.
Desenvolvimento sustentável O FunBio - Fundo
Brasileiro para a Biodiversidade lançou o edital de convocação de projetos para
o Programa de Apoio à Produção Sustentável. O Edital convida organizações
comunitárias, associações de produtores, cooperativas, organizações não
governamentais, e micro e pequenas empresas a elaborarem projetos que consolidem
iniciativas inovadoras de pequeno porte, já em operação, ligadas ao uso
sustentável da biodiversidade, que representem uma alternativa às atividades
econômicas de alto impacto ambiental e que ampliem as possibilidades de geração
de emprego e renda para as populações locais. O FunBio destinará para este
edital R$ 1.300.000,00 divididos em duas fases do processo seletivo. As
propostas precisam prever um prazo máximo de implementação de dois anos e meio e
devem ser encaminhadas para a Secretaria Executiva do FunBio até dia 05 de
junho. Os resultados serão divulgados até dia 30 de julho. Informações e ficha
de inscrição/carta consulta: tel/fax: (21) 579.0809; E-mail: funbio@funbio.org
;
ou pelo site: http://www.funbio.org
Recrutamento A Associação
Recife-Oxford para a Cooperação ao Desenvolvimento, entidade com convênio com a
OXFAM GB, está recrutando no Brasil um(a) assessor(a) para o Programa Amazônia e
Povos Indígenas para se incorporar à equipe do Recife/PE. Entre outras
atribuições, os candidatos devem ter no mínimo três anos de experiência em
atividades desenvolvidas junto a organizações da sociedade civil. Os
curriculuns, acompanhados de uma carta pleiteando o cargo, deverão ser enviados
até 5 de maio, por correio eletrônico. As entrevistas acontecerão entre os dias
17 e 18 de maio, e o início do trabalho está previsto para 19 de junho.
Informações: Tel: (81) 231 5449, Fax: (81) 221 5319, E.mail eliane@oxfam.org.br
Urbanismo O IBAM
- Instituto Brasileiro de Administração Municipal está organizando o XI
Congresso Iberoamericano de Urbanismo e chama urbanistas iberoamericanos para
inscrições de trabalhos, visando debate e troca de experiências. O prazo para
apresentação é 15 de maio. Está sendo organizada também a Mostra das Cidades
Ibero-americanas, em que as municipalidades poderão expor ações urbanísticas
recentes, concluídas ou em desenvolvimento, incluídas no tema do Congresso. Os
interessados podem obter mais informações pelo telefone: Tel: (21) 537-7595-
ramal 207/Fax: (21) 537-1262 ou por E-mail: iberoamericano@recife.pe.gov.br.
Código Florestal A ABONG está
subscrevendo a carta de apresentação que encaminha a proposta para conversão da
Medida Provisória que altera o Código Florestal, elaborada pelo Conama -
Conselho Nacional de Meio Ambiente. A matéria será votada no Congresso Nacional
em breve e o Instituto Socioambiental -ISA (SP) está coordenando uma campanha
para informar e sensibilizar os deputados sobre o conteúdo do documento. A
íntegra da proposta está disponibilizada no site do ISA ( www.socioambiental.org)
e as organizações dispostas em apoiá-la devem enviar uma mensagem a alima@socioambiental.org
ou adriana@socioambiental.org.
Capacitação A PUC-SP dá início, em
maio, às aulas do Curso "Orçamento Público e Cidadania". Em parceria com o
Corecon/SP - Conselho Regional de Economia, a universidade abordará temas como a
importância do orçamento público; o processo orçamentário - Plano
Plurianual,
Lei de Diretrizes Orçamentárias e Lei do Orçamento; recursos financeiros e
recursos orçamentários; orçamento participativo; e o orçamento como instrumento
de planejamento. Tel: (11) 3873-3155; Site: http://cogeae.pucsp.br
|