| INFORMES ABONG Nº 81 - Março de 2000 - PE: ABONG VAI À JUSTIÇA CONTRA CLIENTELISMO DE DEPUTADOS
A Regional Nordeste 1 da ABONG (PE, PB e AL) entrou na ultima terça-feira, 21,
com uma arguição de inconstitucionalidade da Lei estadual 11.190/94 que criou
e disciplina a assistência social feita pelos deputados com recursos orçamentários
da Assembléia. Na prática, cada um dos 49 deputados estaduais de Pernambuco
recebe, mensalmente, R$ 20 mil para destinar a entidades sociais de sua preferência,
o que significa um dispêndio de quase R$ 12 milhões por ano.
Na petição encaminhada à Procuradoria Geral de Justiça, a Regional ABONG
justifica a solicitação apontando que a referida Lei fere a Lei Orgânica de
Assistência Social, pois a "formulação de políticas e programas de
assistência é competência dos conselhos nacional, estaduais e municipais de
assistência", e o financiamento dos projetos deve ser resultado de dotação
orçamentária do Executivo, repassada aos Fundos de assistência social de cada
uma dessas instâncias.
Além disso, a petição da ABONG afirma que a lei pernambucana induz ao desvio
das funções do Legislativo, que tem como atribuição a fiscalização do
Executivo e a formulação de leis, e contraria a legislação eleitoral, que
pretende garantir igualdade de condições entre os candidatos, ao possibilitar
que os deputados estaduais disponham, durante quatro anos, de recursos públicos
para favorecer instituições e pessoas "em uma prática assistencialista e
clientelista". Não bastasse isso tudo, ainda parece ferir a Lei de Licitações,
porque não obriga as entidades beneficiárias a prestarem contas ao TCE ou a
qualquer outro órgão fiscalizador, apenas à própria Assembléia Legislativa.
Ação tardia
Na tentativa de evitar a extinção da Lei e "preservar a imagem do
Legislativo", no mesmo dia 21, a Assembléia aprovou a criação de uma
comissão parlamentar suprapartidária para "propor alterações na Lei
11.190/94" no sentido de garantir "mais transparência na utilização
dos recursos".
Na avaliação de Eduardo Homem, diretor regional da ABONG, a intenção dos
parlamentares é ganhar tempo e tentar "salvar alguma coisa da Lei".
De acordo com ele, a iniciativa não interessa à sociedade civil. "O que a
ABONG quer é a extinção da Lei. Se o Legislativo quer continuar fazendo
assistência social, que repasse a totalidade da verba que recebe para isso ao
Fundo Estadual da Assistência Social", disse.
Sobre a atuação dos parlamentares no "auxílio" a entidades sociais,
Eduardo foi enfático: "Ou resulta em assistencialismo clientelista ou em
pilantropia".
Caso a Lei seja considerada inconstitucional pela Procuradoria, seu parecer será
encaminhado ao procurador-geral da República, que ingressará com ação no
Supremo Tribunal Federal para extinguí-la. Embora não exista prazo determinado
para o posicionamento do Ministério Público, o procurador geral da Justiça no
Estado, Romero Andrade, assumiu publicamente compromisso de emitir parecer antes
do final da próxima semana.
Corrupção
Até a última semana os deputados estaduais sequer divulgavam as instituições
beneficiadas com a subvenção. Com a divulgação, feita a partir de órgãos
de imprensa e entidades da sociedade, emissoras de TV e jornais locais têm
mostrado diversas irregularidades envolvendo estas instituições, reforçando
os argumentos utilizados pela Regional ABONG.
Esta é a segunda vez que a Associação aciona o ministério público para
coibir o assistencialismo dos deputados pernambucanos. A primeira, feita em
1997, resultou em intensa fiscalização sobre as entidades beneficiárias por
parte do Ministério Público, que posteriormente chegou a processar
judicialmente vários responsáveis por irregularidades tais como as que agora
se repetem.
Na ação atual movida pela ABONG não está solicitada a investigação das
entidades beneficiadas pelos deputados estaduais, porque a motivação principal
é fazer valer a lei que consagra os conselhos de assistência como os órgãos
competentes, mas o procurador Romero Andrade informou que o Ministério Público
também iniciou ações naquele sentido, motivado pelas denúncias da imprensa e
que a eventual declaração de inconstitucionalidade da lei 11.190 não
prejudicará a punição de irregularidades cometidas.
SENADO VOTARÁ MORATÓRIA DOS TRANSGÊNICOS
O Projeto de Lei do Senado que prevê moratória para a utilização comercial
de organismos geneticamente modificados (PLS 216/99), de autoria da senadora
Marina Silva (PT/AC), deverá ser votado na próxima semana na Comissão de
Assuntos Sociais - CAS do Senado. O parecer ao projeto foi parcialmente
discutido na CAS na última quarta-feira, 22, e os dois senadores que se
manifestaram - Carlos Bezerra (PMDB/MT) e José Alencar (PMDB/MG) - apoiaram o
parecer do relator, senador Leomar Quintanilha (PPB/TO), pela rejeição à
moratória.
De acordo com os senadores "o assunto já foi suficientemente debatido e a
experiência em todo o planeta demonstra que a produção de transgênicos é
uma fatalidade dos tempos modernos".
Contudo, o parecer não foi votado porque os senadores Tião Vana (PT/AC),
Geraldo Cândido (PT/RJ) e Heloísa Helena (PT/AL) pediram vista coletiva por
uma semana. A expectativa é que, neste período, as organizações da sociedade
civil intensifiquem a pressão no Senado pela aprovação da moratória. O
gabinete da senadora Marina Silva também deverá requerer uma audiência pública
na CAS.
Caso a moratória seja rejeitada nesta Comissão, a senadora Marina Silva
"interporá recurso", fazendo com que a matéria seja votada no Plenário
do Senado.
Senadora Marina Silva - E-mail: marinasi@senadora.senado.gov.br
PASCAL LAMY ENCONTRA-SE COM ONGs BRASILEIRAS
No dia 21 de março, o Ministro Pascal Lamy, responsável por assuntos de comércio
exterior da Comissão Européia e seu principal negociador nesta área, recebeu
representantes de ONGs brasileiras e acadêmicos, convidados pela ABONG, com o
objetivo de conhecer a opinião das mesmas a respeito de temas como as conexões
entre comércio, meio ambiente, direitos econômicos e sociais, as relações
entre o Mercosul e a União Européia, e a reforma da OMC. Participaram da audiência
Sérgio Haddad (ABONG), Ladislau Dowbor (PUC-SP), Sílvio Caccia Bava (Polis), Cândido
Grzybowski (Ibase), Fátima Mello (Fase), Paulo Eduardo Elias (Cedec) e Marilena
Lazzarini (Idec).
Lamy informou que a União Européia busca desenvolver uma agenda ampla sobre
comércio, incluindo as dimensões social, ambiental e trabalhista, e que isso,
segundo ele, causa impasse nas negociações, pois suas posições não são
seguidas por outros países. Além disso, há a suspeita, por parte de muitos países,
de que as "boas intenções" da UE sejam uma forma de protecionismo.
O ministro ficou interessado em conhecer o posicionamento das ONGs sobre os
transgênicos e o estado do debate no Brasil a este respeito.
Mercosul/UE
Sobre o acordo Mercosul-UE, Lamy argumentou que nele há componentes
inexistentes no caso da ALCA. Enquanto esta restringe-se à criação de uma área
de livre comércio, o acordo Mercosul-UE estaria assentado em três pilares: comércio,
relações políticas e desenvolvimento, e que a UE não teria se engajado neste
acordo se não existissem estes pilares, embora reconheça que, do lado dos
governos do Mercosul, o interesse maior está concentrado nas relações
comerciais.
Lamy afirmou que a UE está interessada em ampliar a participação da sociedade
civil no âmbito do acordo, e comprometeu-se a examinar junto aos governos do
Mercosul as possibilidades neste sentido.
No que diz respeito à reforma da OMC, informou que a UE está tentando relançar
a Rodada do Milênio, introduzindo novos temas (social, trabalhista, ambiental),
e argumentou que o Brasil exerce um papel muito importante neste processo. Um
dos temas que mencionou, querendo conhecer o posicionamento dos presentes a
respeito, foi a introdução de convenções da OIT, afirmando que a posição
da UE é de promover os padrões e direitos trabalhistas através de preferências
comerciais e incentivos positivos, o que a diferencia dos EUA, que defendem a
adoção de sanções. Ao final, o grupo cumprimentou o ministro pela iniciativa
e obteve dele o compromisso de examinar formas para a continuidade do diálogo.
NOTAS
Jubileu 2000
O Fórum Sul/ABONG, Cefuria - Centro de Formação Urbano Rural "Irmã Araújo
(PR), através da Quem TV Produções de Curitiba, e a ONG suíça E-Changer,
produziram no último mês o vídeo La vie audessu de la dette (A vida acima da
dívida), que deve subsidiar o debate sobre o cancelamento da dívida externa e
a Campanha Jubileu 2000 na Suíça. A fita traz depoimentos dos integrantes do
Tribunal da Dívida Externa, realizado no Rio de Janeiro nos dias 26 a 28 de
abril do ano passado, e foi legendada em francês. No Brasil, os interessados em
obter cópias da fita devem entrar em contato com o Fórum Sul/ABONG, fone: (47)
455-3447; E-mail forumsul@zaz.com.br
Site voluntário
O provedor O Site lançará no próximo mês o canal "O Site Voluntário",
destinado a divulgar iniciativas de organizações da sociedade civil, empresas
e escolas que contribuam para o desenvolvimento social a partir do trabalho
voluntário de pessoas e instituições.
Além de informações sobre o tema, o canal disponibilizará um banco de dados
com entidades que utilizam trabalho voluntário e de pessoas dispostas a
oferecer este serviço. As pessoas e organizações interessadas em integrar
este catálogo devem entrar em contato com "O Site Voluntário" através
do E-mail lrupp@osite.net
ABONG e Terceiro Setor
A Reunião do Conselho Diretor da ABONG, que acontecerá nos próximos dias 28,
29 e 30, em São Paulo, será precedida por um debate sobre o "Terceiro
Setor". O evento acontecerá na manhã do dia 28, com a participação das
ONGs que compõem o Fórum Paulista/ABONG.
Mata Atlântica
A Rede Mata Atlântica, que reúne 170 ONGs brasileiras que atuam na defesa e
conservação da Mata Atlântica em 17 Estados, realizará no próximo dia 25,
em São Paulo, seu I Encontro Estadual. O objetivo da reunião é apresentar as
entidades participantes da Rede e promover uma discussão sobre as prioridades
regionais, a Campanha desmatamento zero, a Lei Florestal estadual, o Conama, além
de outros temas. Confirmação de presença pelo telefone (11) 887-1195 com Bellô
Monteiro ou pelo E-mail voluntariado@sosmataatlantica.org.br
Cidadania
Veja no site da ABONG ( www.abong.org.br)
entrevista com o sociólogo Francisco de Oliveira, sobre o tema "formação
da cidadania".
Moradia popular
O Centro Dom Hélder Câmara - Cendhec/PE, está lançando a cartilha
"Terra, pra que te quero?", com orientações para a regularização
da posse da terra nas Zonas Especiais de Interesse Social - Zeis, em Recife,
habitadas pela população de baixa renda.
A publicação integra as comemorações dos 10 anos de atividades da ONG e
coincide com a revisão da Lei do Uso e Ocupação do Solo que deve ser votada
pela Câmara de Vereadores do Recife ainda este ano. Cendhec - Fones:
(81) 231.3654/222.0378; -E-mail: cendhec@elogica.com.br
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