| INFORMES ABONG Nº 146 - 26 de julho a 01 de agosto de 2001 -
DECRETO, NA PRÁTICA, NÃO ROTULA TRANSGÊNICOS
Mais um passo para impor os transgênicos ao Brasil antes que se tenha
qualquer garantia sobre sua segurança para o meio ambiente, para a agricultura
e para a saúde da população. De acordo com a Campanha por um Brasil Livre de
Transgênicos, isso é o que significa na prática o Decreto 3.871, que
disciplina a rotulagem de alimentos transgênicos no Brasil, publicado no último
dia 19 no Diário Oficial da União. Segundo o decreto, serão rotulados somente
os alimentos embalados destinados ao consumo humano e contendo em sua composição
acima de 4% de organismos geneticamente modificados (OGMs).
Em nota divulgada no início da semana, o Idec - Instituto Brasileiro de Defesa
do Consumidor, uma das ONGs que coordenam a Campanha, afirma que o decreto é um
"uma forma disfarçada de esconder do consumidor a informação". O
limite estipulado, explica o Idec, atinge uma parcela muito pequena dos produtos
transgênicos. Se a presença de OGMs for igual ou pouco menor a 4% o consumidor
não ficará sabendo. Além disso, o Idec ressalta que não há respaldo científico
para a utilização desse percentual. Alguns aditivos, como conservantes e adoçantes
artificiais, são usados em quantidades muito menores e devem ser mencionados no
rótulo aos consumidores.
O decreto determina também que, se houver mais de um ingrediente transgênico,
cada um deles poderá ter o percentual máximo de 4%, sem a necessidade de
rotulagem, além de isentar do rótulo os produtos in natura e aqueles em que não
for detectada a presença de OGMs, o que exclui produtos altamente processados
como massas e chocolates, por exemplo.
O Idec destaca que o decreto também não tem sustentação do ponto de vista
jurídico pois o artigo 31 do Código de Defesa do Consumidor determina que as
informações sobre as características, composição e origem dos produtos
devem ser "corretas, claras, precisas e ostensivas". Ao deixar brechas
como as citadas, o governo impede a rotulação da maior parte dos alimentos de
origem transgênica.
A comercialização de produtos contendo ingredientes transgênicos está
proibida no Brasil. Sua liberação está condicionada à elaboração de estudo
de impacto ambiental prévio a cada liberação de espécie transgênica; à
avaliação dos riscos à saúde, com base em norma técnica a ser elaborada
pelo governo federal; e à rotulagem de transgênicos. As duas primeiras condições
ainda não foram cumpridas.
Ofensiva e reação
Um dos primeiros passos da ofensiva do governo a favor dos transgênicos foi a
publicação em 25 de maio deste ano pelo Ibama - Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis de um termo de referência que
especifica como deve ser elaborado o Estudo de Impacto Ambiental e o respectivo
Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) para a soja transgênica Roundup
Ready (RR), da Monsanto. A medida atropelou o trabalho que vinha sendo
desenvolvido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) há cerca de um
ano, órgão consultivo deliberativo responsável por elaborar esses critérios.
A apresentação do EIA/RIMA pela Monsanto representa um passo importante para a
aprovação dessa soja.
"A campanha vai nos dias 30 e 31 de julho discutir a estratégia para
barrar a questão do termo de referência e do decreto sobre a rotulagem e uma
intervenção mais eficaz no Conama", explica Magnólia Said (Esplar-CE).
Na quinta-feira, dia 26, a campanha organizou manifestação em frente ao Ministério
da Agricultura.
Através do site do Idec, os usuários podem enviar e-mails ao presidente da República
em protesto contra o decreto. A íntegra da nota também pode ser acessada no
site.
Idec (SP) - ideccampanha@uol.com.br;
www.idec.org.br
Esplar (CE) - Tel: (85) 252 2410 e-mail: esplar@brhs.com.br
ONGs PROPÕEM CRIAÇÃO DE FUNDO DE PROJETOS SOCIAIS EM SP
Na última reunião do Fórum Paulista de ONGs, realizada no dia 17 de julho,
foi aprovada a minuta do Projeto de Lei Estadual que cria o Fundo de Projetos
Sociais da Sociedade Civil. Este Fundo, a ser constituído com 0,5% dos recursos
da quota parte do ICMS do último mês de referência de cada ano destinada ao
Governo do Estado de São Paulo (aproximadamente R$ 80 milhões/ano), será
destinado ao financiamento de projetos apresentados por sociedades civis sem
fins lucrativos.
No dia 27 de agosto, em ato na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo,
o Fórum Paulista de ONGs entregará o projeto ao deputado Walter Feldman,
presidente da Assembléia, que já se manifestou interessado em acolher a
demanda das ONGs. O Fórum convoca todas as ONGs paulistas a participarem do
ato.
O projeto prevê também a criação do Conselho Estadual de Projetos Sociais da
Sociedade Civil, que será responsável por definir as políticas de utilização
dos recursos captados pelo Fundo. Esse Conselho será formado por 12 membros,
entre deputados estaduais e representantes das sociedades civis sem fins
lucrativos do Estado de São Paulo, eleitos entre seus pares.
Além de estabelecer políticas que estimulem e fortaleçam os grupos de cidadãos
organizados para a implementação de projetos sociais de interesse público, o
Conselho também deverá controlar e fiscalizar os projetos que receberem esses
recursos.
Atividades previstas pelo Fopong: 1. Seminário "O papel das ONGs na
sociedade brasileira: novos desafios", no dia 18/09. 2. "ONGs e
governo: uma relação delicada", no dia 02/10.
Fopong - E-mail: fopong@netway.com.br
CONSELHO VOLTA A DISCUTIR ANGRA-3
No dia 1o de agosto, o Conselho Nacional de Política Energética reúne-se
com o presidente da República para discutir a continuidade ou não da construção
da usina nuclear de Angra-3, prevista desde 1974. O Informes Abong conversou com
o geólogo Ruy de Góes, consultor do Greenpeace, que falou sobre os riscos
existentes e a necessidade de se pressionar os ministérios, o governo,
deputados e senadores contra essa decisão.
Informes Abong - Em que contexto retorna a discussão sobre a Angra-3?
Ruy de Góes - A construção da Angra-3 está prevista desde 1974. As obras
se iniciaram, mas por enquanto só existem buracos. Os equipamentos foram
comprados e estão guardados, o que gera custos de armazenamento e seguro e a
discussão hoje é o que fazer com isso. Já foram gastos 750 milhões de dólares
e a previsão oficial do setor nuclear é de que seriam necessários mais 1,5
bilhão de dólares para terminar. Essa discussão estava enterrada e, de
repente, reapareceu na pauta. Há algumas entidades mobilizando-se, mas ainda não
de maneira articulada.
Informes Abong - Qual é a importância dessa reunião?
Ruy - A idéia é que esse conselho faça uma recomendação para o FHC. A
partir daí, o presidente enviaria mensagem ao Congresso a favor da continuidade
da usina ou contrária, pelo abandono do projeto. Existe um lobby forte do setor
nuclear e de empreiteiras, que propõem terminar a construção da usina.
Informes Abong - E quais são os argumentos apresentados a favor da Angra-3 e
contra?
Ruy - O que o lobby nuclear argumenta principalmente é que esse tipo de
energia é uma tecnologia do futuro, da qual o Brasil não poderia abrir mão
porque no futuro a gente pode vir a precisar. A contraposição a isso é que
ninguém mais investe em tecnologia nuclear. A Alemanha, país que nos vendeu a
Angra-3, já parou os investimentos nessa área e já determinou o fechamento de
todas as usinas de energia nuclear até 2020. Isso aconteceu na Europa como um
todo, com exceção da França. Os Estados Unidos mesmo não construíram
nenhuma usina nuclear nos últimos 20 anos. Mas com o Bush isso pode mudar... Além
disso, o que realmente é um investimento voltado para o futuro são as fontes
de energia renováveis, principalmente biomassa, solar e eólica.
Informes Abong - O apagão é um argumento legítimo em defesa da energia
nuclear?
Ruy - A idéia de que apagão seria um argumento em favor é falsa. Mesmo
que a alternativa fosse continuar as obras, terminar essa usina levaria 5 ou 6
anos no mínimo em um cenário extremamente otimista. Entretanto, esse dinheiro
poderia estar sendo empregado em outros projetos de geração de energia mais
baratos, efetivos e ambientalmente mais saudáveis. Existem várias
possibilidades, desde as usinas termoelétricas - que não são boas mas são
melhor que as nucleares -, cogeração, uso de bagaço de cana, biomassa. Além
disso, existe um potencial enorme a ser explorado de energia eólica e solar.
Informes Abong - De que maneira a sociedade pode se mobilizar?
Ruy - Uma pequena ação é escrever aos ministros, das Minas e Energia
principalmente (jose.jorge@mme.gov.br),
que é presidente do conselho. A articulação precisa ser retomada e a
sociedade tem que cobrar informações em relação ao setor. A questão é econômica
também. É preciso haver uma ampla consulta à população. A previsão oficial
de 1,5 bilhão não é confiável. O custo final de Angra 1 ficou em torno de
3,5 bilhões e o de Angra-2, em 10 bilhões de dólares. Claro que estas tiveram
problemas como as paralisações constantes. Mesmo que o custo estimado seja
real, o valor justifica uma discussão ampla sobre o uso do dinheiro público.
Outra questão fundamental é a segurança. Vários países abandonaram a
energia nuclear devido ao risco à população. É bom lembrar que um acidente
com uma usina nuclear é sempre gravíssimo.
Ruy de Góes - e-mail: ruygoes@ig.com.br
NOTAS
Comunicado do Fórum Sul/Abong
O Fórum Sul/ABONG informa aos parceiros, amigos e leitores que o InfoSul não
será veiculado no mês de agosto porque a Secretaria do Fórum e o CDH de
Joinville foram assaltados na madrugada do dia 25 de julho. Perdemos todo o
equipamento de informática, inclusive seu conteúdo. Assim, as próximas
semanas estarão voltadas para a substituição do equipamento, recuperação
dos dados e reorganização de nosso trabalho. Retomaremos as atividades normais
em breve! Agradecemos pela compreensão e até a edição de outubro.
Um abraço,
A Coordenação do Fórum Sul/ABONG
Desenvolvimento da Amazônia
Representantes da sociedade civil organizada de vários estados brasileiros
estarão discutindo em Belém, no próximo dia 2, os "Impasses e
Alternativas ao Desenvolvimento na Amazônia, tendo como foco de discussão os
grandes projetos que estão previstos ou já em fase de implantação na região
no âmbito do Plano Plurianual do Governo Federal (PPA). O evento, promovido
pela Abong e pelo Faor, contará com a presença do economista e professor da
Fundação Getúlio Vargas, Paulo Nogueira Batista Júnior. Guilherme Carvalho
(Fase/Faor/Rede Brasil), Raimundinha Monteiro (Ministério do Meio Ambiente) e
Marina da Silva Kahn (ISA) falarão dos impactos desses projetos nas cidades da
Amazônia, sobre o Meio Ambiente e os Movimentos Sociais e sobre os povos indígenas.
O seminário acontece entre as 14h30 as 20 horas, no Hotel Beira Rio.
Fórum Amazônia/Abong - (91) 224-9074 ou (91) 241-0951.
Banco de projetos
O Comitê de Entidades no Combate à Fome e pela Vida (Coep) e a Oficina Social
lançam no próximo dia 31 o Banco de Projetos MobilizAção, um acervo de
iniciativas e ações voltadas para a melhoria da qualidade de vida da população.
Ele já conta com mais de 400 projetos cadastrados em áreas como educação, saúde,
geração de trabalho e renda, crianças e jovens, desenvolvimento local,
mobilização social. As informações poderão ser acessadas por todos
gratuitamente. Informações nos sites: www.coepbrasil.org.br
e www.mobilizacao.org.br ou
(21) 3816-3393 - Liseane Morosini.
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