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Belo Monte: ditadura, nunca
mais
08/02/10
Era uma vez um “Belo
Monte”. Tão belo que despertou a sede insaciável dos monstros que vieram para
ficar e somente deixarão a terra que há anos ocupam, quando se apropriarem de
vez, de todos os rios, todos os minérios, toda a biodiversidade do pulmão do
mundo que, já em estado grave, clama pela resistência ativa de seus habitantes
naturais: os povos da floresta.
A vila de Belo Monte fica
localizada nas proximidades do rio Xingu, Estado do Pará, no coração da selva
amazônica, próxima à cidade de Altamira. É ali, onde a bacia do Xingu tem a
mesma biodiversidade em peixes que toda a Europa, que o governo brasileiro –
tomando o nome da vila - pretende construir uma das maiores hidrelétricas do
mundo. Este é um projeto do tempo da ditadura militar, data dos anos 70.
Originalmente, previa a construção de cinco usinas na região.
Desde então, os povos
indígenas, os ribeirinhos, a população da região, ambientalistas e a Igreja
local vêm lutando contra este projeto. Em 1989, os
índios realizaram o
“Primeiro Encontro das Nações Indígenas do Xingu”, que alcançou repercussão
nacional e internacional. Pouco depois deste encontro, o Banco Mundial negou o
suporte financeiro e o projeto foi arquivado. Mas não foi abandonado. Agora, por
iniciativa do governo Lula, ele volta com toda a força, como parte dos projetos
do PAC. Para acalmar a resistência ao projeto, o governo reduziu a proposta de
cinco para uma única usina.
O governo afirma que ela
gerará 11.233 megawatts. No entanto, é sabido que essa potência só será
produzida durante apenas quatro meses, nos demais o máximo que se conseguirá é
4.000 MW, ou seja, um terço do anunciado. O volume de terra a ser retirado para
formar os canais será tão grande quanto aquele escavado para a construção do
canal do Panamá! Milhares de pessoas dos municípios de Altamira, Vitória do
Xingu e Brasil Novo serão retiradas de suas terras compulsoriamente, tornando-se
mais pobres. Um terço da cidade de Altamira ficará submerso. Os estudiosos
afirmam que a construção de uma usina é apenas uma etapa: o projeto seria
financeiramente deficitário se se limitasse a uma única usina. Aprovada e
iniciada a primeira, o projeto das outras quatro virá necessariamente.
Profundos impactos serão
causados na fauna e na flora; haverá comprometimento da navegabilidade, da
pesca, da agricultura; animais serão extintos e os modos de vida locais se
perderão em definitivo; grandes áreas de bosques serão inundadas. Cem
quilômetros do rio Xingu, um afluente do Amazonas – com largas cachoeiras e
fortes corredeiras, arquipélagos, florestas, canais naturais rochosos – se
tornarão secos ou serão reduzidos a um filete de água! E, isto, logo após a
Conferência de Copenhague sobre a gravidade da questão ambiental no mundo atual.
Para fazer aprovar este
projeto, o governo vem passando por cima de uma série de exigências: seriam
necessárias 27 audiências públicas, foram feitas apenas 4 e, mesmo assim, os
principais interessados, os indígenas, ou não tiveram acesso ou tiveram seu
acesso dificultado. O Ministério Público do Pará denunciou este fato. Para fazer
o IBAMA conceder a licença ambiental, houve pressão sobre seus funcionários:
dois deles deixaram o órgão no final do ano passado em função disso. O
Ministério das Minas e Energia (Edson Lobão) e o Ministério do Meio Ambiente
(Carlos Minc) pressionaram para que a licença ambiental fosse concedida e o
fosse o quanto antes. E assim foi.
Não satisfeito com este
procedimento autoritário, a Advocacia Geral da União (AGU), logo em seguida à
concessão da licença, lançou uma nota – apoiada pelo Presidente da República -
ameaçando processar os membros do Ministério Público que venham a colocar em
questão a licença concedida ou o próprio projeto. Os meios de comunicação
observaram que esta posição da AGU é inédita.
Na verdade, é um retorno às
práticas da ditadura: foi assim que os militares construíram suas grandes obras,
seus grandes projetos (inundação das Cataratas de Sete Quedas, a construção das
barragens de Tucuruí e tantas outras, a Transamazônica, a usina nuclear de Angra
dos Reis, o “Brasil Potência”, o “Brasil, ame-o ou deixe-o”...). Foi passando
por cima da sociedade, dos povos indígenas – que não deveriam ser um empecilho
ao “progresso” -, das populações ribeirinhas, dos atingidos pelas barragens, do
respeito ao meio ambiente.
O Brasil deixou de ser
ditadura há 25 anos e, num regime democrático, a sociedade tem o direito de se
manifestar, de protestar quando percebe que projetos governamentais vão trazer
prejuízo para a população. Finda a ditadura, graças à mobilização do conjunto da
sociedade civil, dos movimentos sociais, das entidades de defesa dos direitos
humanos, das Igrejas, construiu-se uma Constituição que restabeleceu as
liberdades democráticas, ampliou os instrumentos de participação social e de
defesa da sociedade contra os abusos do poder. Um destes instrumentos de defesa
criados pela Constituição foi o Ministério Público. Esta instituição deve ter
absoluta liberdade de ação: opor ameaças ao seu trabalho é reeditar
comportamentos diante dos quais não nos calaremos. Não passem por cima da
Constituição Cidadã: ditadura, nunca mais!
O objetivo principal da
energia que será gerada em Belo Monte é atender às necessidades das grandes
empresas já instaladas ou que vão se instalar na região ou em suas proximidades;
o que importa são os resultados financeiros para as empreiteiras privadas, para
as estatais (seja Odebrecht, Camargo Correa, Andrade Gutierrez, Chesf, Furnas,
Eletronorte, Eletrosul) e para os Bancos. Falou-se, inicialmente, de um custo de
6,7 bilhões; agora já se fala em 30 bilhões. Segundo o pesquisador Oswaldo Sevá,
trata-se de “um projeto absurdo, [que] foi imaginado por gente que só pensa em
dinheiro”. Um conjunto de pesquisadores insiste que há muitas alternativas para
gerar energia elétrica no Brasil sem destruir o meio ambiente, sem prejudicar os
habitantes (em particular, os povos indígenas), de forma limpa e mais
inteligente. Entre outras coisas, eles mostram que é pouco sensato construir uma
usina na Amazônia e depois ter de construir enormes redes de transmissão para
levar esta energia para outras regiões. Após ter revisado toda a produção e
distribuição de energia já existente no Brasil, o que economizaria uma energia
muito maior do que Belo Monte pode produzir, o governo brasileiro deveria
concentrar-se no investimento das energias alternativas que são hidrelétricas,
sim, mas pequenas – nunca grandes - energia eólica – que eles demonstram que
pode produzir dez vezes mais energia que Itaipu – e energia solar (que as
autoridades brasileiras poderiam desenvolver, se tivessem interesse).
A ABONG se solidariza com os
atingidos e as atingidas pelo projeto da Hidrelétrica de Belo Monte, e por todos
os projetos de hidrelétricas em execução ou planejadas na Amazônia (quase 400),
denuncia a depredação ambiental que será causada se este projeto for levado
adiante e repudia veementemente a decisão do governo Lula, que vem manchar de
vergonha quem acreditou que a esperança prometida de dias melhores estaria
voltada para quem, de fato, precisa de vida digna.
São Paulo, 05 de fevereiro de
2010
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